É na primeira infância que as bases da cognição afetiva são construídas. Auxiliar as crianças no gerenciamento das emoções e sentimentos é contribuir para a constituição de um adulto intelectualmente e emocionalmente mais preparado para enfrentar os desafios da vida.
A escola é um espaço que não é composto apenas por conteúdos acadêmicos, possuindo papel central na construção da inteligência emocional do aluno. Compreenda o que é a afetividade na educação infantil, quais são seus benefícios e o que professores e gestores podem fazer para construir ambientes de aprendizagem mais humanos e acolhedores.
O que é afetividade na educação infantil?
A afetividade na educação infantil é o conjunto de vínculos emocionais, práticas de acolhimento e relações de confiança que o ambiente escolar constrói com a criança ao longo de sua formação. Vai além do carinho físico ou da simpatia do professor: envolve disponibilidade, escuta ativa, presença genuína e a capacidade de nomear, conduzir e validar as emoções da criança no cotidiano da sala de aula. É por meio dessas trocas que a escola contribui para o desenvolvimento socioemocional do aluno e cria as condições internas necessárias para que o aprendizado aconteça de forma plena.
É entre os 0 e os 5 anos de idade, período denominado primeira infância, que os pequenos constroem suas bases de cognição, sejam elas motora, ética, social ou emocional.
A comunicação emocional existe desde os primeiros meses de vida, expressada pelo sorriso e o choro, enquanto a fala não se desenvolve. Piaget (1961) afirma que o sujeito é composto de desenvolvimento cognitivo e afetivo como dois pontos inseparáveis. Nesse sentido, a afetividade na educação infantil colabora na constituição de um ser humano íntegro e com maior competência emocional para resolver conflitos e enfrentar os desafios da vida.
Vygotsky (2003), em seus estudos, tratava a afetividade existente entre o professor e o aluno como algo fundamental para a construção de conhecimento em ambiente escolar. Portanto, o docente precisa estar com o seu emocional equilibrado para que isto aconteça de fato.
A afetividade na educação infantil se preocupa em construir um indivíduo sócio-afetivo que busca sua autonomia, reconhecendo seus próprios interesses e desejos.
Freire (1989, p. 170) afirma que "a afetividade é o território dos sentimentos, das paixões, das emoções, por onde transita medo, sofrimento, interesse, alegria". Dessa forma, é possível afirmar que famílias e educadores são peças essenciais nesse processo de construção da educação afetiva.
Para que o processo educativo seja íntegro e verdadeiro, a afetividade na educação infantil deve estar presente para proporcionar uma relação mais próxima entre as crianças e aqueles que fazem parte do convívio, interferindo na constituição de sua personalidade.
Para o educador, a promoção de atividades que envolvam a reflexão de valores emocionais é uma forma de reforçar a afetividade na educação infantil. Quanto mais se semeia, se vivencia e se discute a importância do que sentimos, maior o impacto para a formação de um cidadão com uma vida emocional mais equilibrada.
O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) constitui a afetividade na educação como uma de suas premissas: "As instituições de educação infantil devem favorecer um ambiente físico e social onde as crianças se sintam protegidas e acolhidas, e ao mesmo tempo seguras para se arriscar e vencer desafios. (BRASIL, 1998, p.15)."
De acordo com esse texto, a proteção e o acolhimento devem estar presentes no ambiente escolar. Por isso, é fundamental a presença do afeto na relação entre gestores, professores e demais profissionais, para que os alunos se sintam seguros e bem-vindos dentro da instituição de ensino.
E o que não é afetividade na educação infantil?
A afetividade na educação infantil não é somente abraçar as crianças ou extravasar um sorriso. Não que tais ações não tenham importância, mas vai muito além disso. É construir, no cotidiano, uma relação emocional com os alunos que envolve disponibilidade, escuta e um envolvimento de corpo inteiro.
Estar dentro da sala de aula apenas reproduzindo as atividades pedagógicas e construindo conhecimentos acadêmicos de maneira gentil e simpática não representa toda a afetividade na educação infantil.
É necessário trabalhar a fundo e nomear as emoções e sentimentos, conduzir os conflitos, criar laços de confiança, amor, respeito e fomentar valores como a empatia e a solidariedade.
É valorizando de forma profunda cada aluno e criando um envolvimento verdadeiro, e não apenas profissional e superficial, que os laços afetivos irão se fortalecer mais e mais.
Afetividade na educação infantil e a BNCC
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) formalizou o que educadores como Piaget e Vygotsky já defendiam: o desenvolvimento socioemocional é parte indissociável da formação integral da criança. Na educação infantil, a BNCC organiza o currículo em torno de seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se, todos eles pressupondo um ambiente afetivo e acolhedor.
O campo de experiências "Eu, o outro e o nós", previsto na BNCC para a educação infantil, trata diretamente da construção da identidade e das relações socioemocionais. Nele, a escola é convocada a favorecer experiências que ampliem o autoconhecimento, a empatia e a habilidade de conviver com as diferenças.
Entre as dez competências gerais da BNCC, as competências 8 (autoconhecimento e autocuidado) e 9 (empatia e cooperação) conectam-se diretamente à afetividade. Isso significa que trabalhar a afetividade na educação infantil não é um diferencial optativo: é uma exigência curricular para o desenvolvimento pleno do aluno.
Benefícios da afetividade na educação infantil
As vantagens na aplicação da afetividade na educação infantil são muitas, entre elas, a confiança criada entre professor e aluno.
Wallon (1995) afirma que a criança na primeira infância "[...] atribui a emoção como os sentimentos, desejos e manifestações da vida afetiva, demonstra os sentimentos como um papel fundamental no processo de desenvolvimento humano".
Nesse sentido, é nítido que a cognição e a afetividade caminham juntas, uma servindo de apoio para a outra, no intuito de constituir a inteligência emocional do sujeito, preparando-o para enfrentar os desafios que a vida apresenta.
Uma criança que recebe estímulos afetivos desenvolve melhor a capacidade de ir em busca de conhecimento, pois tem dentro de si o anseio por aprender, algo desenvolvido com base nas experiências positivas adquiridas com as trocas com o meio em que está inserida.
Dessa forma, os benefícios da afetividade na educação infantil atuam como instrumento facilitador da aprendizagem, além de atuar fortemente no desenvolvimento emocional do indivíduo.
Desenvolvimento emocional, social e intelectual por meio da afetividade
Jean Piaget nos convida a conhecer o desenvolvimento emocional infantil em suas pesquisas sobre o tema. Para o autor, os primeiros anos de vida são fundamentais para a adaptação física e social do ser humano.
Partindo da afirmação de que "educar é adaptar o indivíduo ao meio social ambiente", Piaget (1985) acredita que a educação não se baseia apenas na construção de conteúdos, mas também em significações sociais e emocionais que irão construir a personalidade da criança com o passar dos anos.
O autor dedicou suas pesquisas para compreender o desenvolvimento infantil, tendo como grande marco a divisão dos períodos de desenvolvimento em quatro fases:
- Sensório-motor (0 a 2 anos): fase em que as crianças se relacionam com as ações provocadas por elas no ambiente, manipulando o que está a sua volta por ações.
- Pré-operatório (2 a 6 anos): desenvolvimento por símbolos mentais, seja de fala ou visuais; atitudes como egocentrismo e intuição, com pensamentos que dependem de fatores externos.
- Operatório-concreto (7 a 11 anos): apresentam noção de quantidade, peso, constância, volume e descentração; são capazes de classificar as coisas ao redor.
- Operacional-formal (11 anos em diante): formalizam as ações por meio da linguagem, utilizando raciocínio hipotético-dedutivo. Uma criança estimulada e com maior regulação emocional possui melhor comunicação e domínio sobre si, além de busca aprofundada pelo saber.
Nesse sentido, construir um ambiente de afeto é como uma mola propulsora para que a criança tenha mais confiança ao se relacionar com o mundo. A afetividade contribui para que haja maior interação entre o professor e os alunos, bem como entre a turma em si.
Assim, além do aprendizado se constituir da melhor forma, existe também a oportunidade de instituir valores importantes para uma saudável convivência em sociedade.
Como aplicar a afetividade na educação infantil no dia a dia

A afetividade na educação infantil pode ser aplicada de diversas formas no cotidiano escolar.
É no dia a dia que os momentos de afeto devem ser construídos. O docente pode e deve agir de forma afetuosa em toda a rotina escolar da criança, tornando a afetividade cada vez mais presente e natural. A observação permanente e a atenção aos detalhes fazem parte do cotidiano em uma sala de aula repleta de afeto.
Contar histórias
É um riquíssimo momento de estímulo, não somente à imaginação, mas ao fortalecimento da relação entre professor e aluno. Além disso, os livros escolhidos podem trazer temas alusivos a valores afetivos e hábitos de convivência saudáveis.
Acompanhar a execução das tarefas individualmente
Estar próximo às crianças enquanto elas executam atividades individuais, questionando a produção e elogiando, é uma forma de gerar proximidade e confiança.
Acatar problemas e críticas
Acolher críticas sobre a condução do ensino de pais e alunos é muito importante, assim como estar presente no momento de escutar e conduzir os conflitos que os pequenos apontam. Exercer a escuta é um ponto-chave para exercer a afetividade e aumentar a confiança na relação entre docente e alunos.
Colocar limites sem agressividade
O professor deve buscar formas de conduzir os alunos e colocar os limites sem expressar agressividade. Buscar estratégias e utilizar o recurso da conversa sempre torna os momentos mais educativos.
Produzir atividades lúdicas
As atividades lúdicas envolvem e promovem a interação, sendo um elemento importante no exercício da afetividade na educação infantil. Divertem, ensinam e desenvolvem a criança sob todos os aspectos.
Como em toda relação, os vínculos afetivos construídos na escola também precisam ter seus limites estabelecidos. O afeto gerado em sala de aula deve sempre estar focado na aprendizagem e na importância que ele traz para a formação da criança.
Outro fator importante é respeitar a forma de cada criança de expressar e receber afeto. Algumas gostam de abraçar, outras preferem demonstrações de outras formas. A percepção do educador é essencial para compreender como construir laços com os alunos de forma sempre respeitosa.
O papel da família na construção da afetividade escolar
A família é o primeiro ambiente afetivo da criança. A escola complementa e aprofunda os vínculos já construídos em casa, mas não os substitui. Quando há coerência entre as mensagens afetivas recebidas em casa e na escola, a criança desenvolve uma base emocional mais estável.
Por isso, manter uma comunicação contínua e aberta com as famílias é parte do trabalho de afetividade da escola. Professores que conhecem o contexto familiar do aluno compreendem melhor suas necessidades, suas possibilidades e os eventuais sinais de alerta que surgem no comportamento.
Ações como reuniões com foco no desenvolvimento socioemocional, canais de comunicação acessíveis e participação das famílias em eventos escolares reforçam a sensação de pertencimento e fortalecem a rede afetiva em torno da criança.
Sinais de alerta: quando a criança apresenta déficit afetivo
Alguns comportamentos podem indicar que uma criança está com dificuldades de estabelecer vínculos afetivos saudáveis no ambiente escolar:
- Isolamento social e dificuldade de interação com os colegas;
- Comportamento agressivo ou desafiador sem causa aparente;
- Dificuldade persistente de aprendizagem, mesmo com capacidade cognitiva preservada;
- Choro frequente, ansiedade ou apego excessivo a um adulto específico;
- Desregulação emocional intensa diante de situações de frustração cotidiana.
Esses sinais não indicam necessariamente um problema estrutural, mas são um convite para que o professor e a escola se aproximem e compreendam o que está acontecendo com aquela criança. O olhar atento do educador é a primeira linha de acolhimento.
Formação continuada e competências socioemocionais do professor
Trabalhar a afetividade em sala de aula exige que o professor também desenvolva suas próprias competências socioemocionais. Um educador que gerencia bem as próprias emoções, pratica a empatia e se comunica de forma clara cria as condições para que as crianças façam o mesmo.
Programas de formação continuada que incluem competências socioemocionais ajudam os professores a reconhecer e trabalhar as emoções das crianças sem perder a autoridade pedagógica. Isso envolve técnicas de mediação de conflitos, nomeação de emoções, criação de rotinas seguras em sala de aula e estratégias para lidar com comportamentos desafiadores sem recorrer à agressividade verbal.
Investir na formação emocional do professor é, portanto, investir diretamente na qualidade do ambiente afetivo da escola.
Como o gestor escolar cria uma cultura institucional afetiva
A afetividade na educação infantil não depende apenas do trabalho individual de cada professor. O gestor escolar tem papel central na criação de uma cultura institucional que sustente e valorize o vínculo afetivo em todos os níveis da instituição.
Algumas práticas que fazem parte desse trabalho:
- Processos seletivos que valorizem inteligência emocional nos candidatos, além das competências técnicas;
- Programas de formação que incluam competências socioemocionais para toda a equipe;
- Espaços de diálogo entre educadores para troca de experiências e suporte mútuo;
- Políticas de clima escolar que priorizem o bem-estar de alunos, professores e equipe de apoio;
- Pesquisas de clima periódicas com famílias e colaboradores para identificar pontos de melhoria.
Afetividade na educação infantil e seus reflexos nos indicadores escolares
O trabalho de afetividade na educação infantil produz impactos que aparecem em indicadores concretos da escola:
- Frequência: crianças que se sentem seguras e acolhidas faltam menos. O vínculo com o professor é um dos fatores mais citados pelas famílias como motivador para a criança querer ir à escola.
- Engajamento: a conexão afetiva com o educador aumenta a disposição da criança para aprender, explorar e participar das atividades propostas.
- Retenção: famílias tendem a manter a matrícula em escolas onde percebem que seus filhos são vistos, acolhidos e bem cuidados emocionalmente, além de academicamente.
Esses indicadores tornam tangível o que parece subjetivo: investir em afetividade é também investir nos resultados da escola.
Afetividade como fundamento da educação de qualidade
A afetividade na educação infantil não é um complemento ao trabalho pedagógico: é parte constitutiva dele. Quando a escola constrói ambientes seguros, professores emocionalmente preparados e uma cultura institucional de acolhimento, as condições para o aprendizado e o desenvolvimento integral da criança estão criadas.
O SAS Educação oferece consultoria pedagógica especializada e formação continuada para apoiar escolas na construção dessa cultura. Quer saber como podemos contribuir com a sua instituição? Entre em contato com um de nossos consultores.
Perguntas frequentes sobre afetividade na educação infantil
O que diz a BNCC sobre afetividade na educação infantil?
A BNCC prevê seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento para a educação infantil: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se, todos relacionados a um ambiente afetivo e acolhedor. O campo de experiências "Eu, o outro e o nós" trata diretamente das relações socioemocionais. Entre as dez competências gerais da base, as competências 8 e 9 tratam de autoconhecimento, empatia e cooperação.
Como o professor pode trabalhar a afetividade sem perder a autoridade em sala de aula?
Afetividade e autoridade não são opostos. Um professor afetivo é aquele que escuta, acolhe e respeita, mas também estabelece limites claros e consistentes. A criança sente segurança exatamente porque sabe o que esperar do adulto. Colocar limites com calma, sem agressividade, e conduzir os conflitos com abertura para o diálogo são formas de exercer autoridade afetiva.
Qual a diferença entre afetividade e permissividade na educação infantil?
Afetividade é a construção de vínculos emocionais saudáveis que incluem presença, escuta, respeito e estabelecimento de limites. Permissividade é a ausência de limites, o que gera insegurança na criança. Uma relação verdadeiramente afetiva inclui a capacidade do educador de dizer não e de conduzir o comportamento da criança com firmeza e carinho ao mesmo tempo.
Como envolver a família no desenvolvimento afetivo da criança dentro da escola?
Manter comunicação contínua com as famílias, promover reuniões com foco no desenvolvimento socioemocional e criar espaços de participação em eventos escolares são caminhos eficazes. Quando a escola compartilha com os pais as estratégias afetivas utilizadas em sala, as famílias podem reforçá-las em casa, criando uma rede de suporte mais consistente para o desenvolvimento da criança.
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