A música costuma fazer parte da vida das crianças desde muito cedo. Canções de ninar, brincadeiras cantadas, sons do ambiente e músicas compartilhadas pela família estão entre as primeiras experiências sonoras da infância.
Na escola, essas vivências podem se transformar em práticas pedagógicas que favorecem a escuta, a comunicação, a criatividade, a coordenação motora e a expressão corporal.
Para isso, não basta apenas reproduzir canções durante a rotina. A musicalização precisa ser planejada com intencionalidade pedagógica, considerando a faixa etária, os interesses das crianças, os objetivos de aprendizagem e as orientações da BNCC.
Quando integrada às brincadeiras e interações, a música também contribui para um aprendizado mais lúdico. Continue a leitura para entender os benefícios da musicalização e conhecer possibilidades para aplicá-la no cotidiano escolar.
O que é musicalização?
A musicalização na educação infantil pode estimular habilidades cognitivas, motoras, comunicativas e socioemocionais.
A musicalização é um processo de aproximação e exploração da linguagem musical. Por meio de sons, ritmos, melodias, silêncios, movimentos e diferentes formas de escuta, a criança amplia sua percepção sonora e suas possibilidades de expressão.
No contexto educacional, a música também pode atuar como uma ferramenta de mediação para a construção do conhecimento. As experiências musicais ajudam a trabalhar habilidades como:
- pensamento crítico;
- interação social;
- criatividade;
- autoconhecimento;
- paciência e respeito ao tempo do outro;
- atenção e concentração;
- comunicação.
Isso não significa utilizar qualquer canção apenas para memorizar conteúdos. A proposta é permitir que a criança escute, explore, compare, produza e crie sons, participando ativamente das experiências.
A música sempre esteve presente na evolução das sociedades como forma de comunicação, expressão cultural e construção de identidade.
No contexto educacional, ela aparece desde a Antiguidade. Na Grécia, por exemplo, a música fazia parte da formação dos cidadãos juntamente com áreas como filosofia e matemática.
Ainda hoje, porém, algumas escolas concentram as atividades musicais em apresentações ou datas comemorativas. A musicalização pode ocupar um espaço mais frequente na rotina, articulada às brincadeiras, às interações e aos diferentes campos de experiências.
Qual é a diferença entre musicalização e ensino tradicional de música?
A musicalização infantil e o ensino formal de música podem se relacionar, mas não possuem exatamente o mesmo objetivo.
O ensino tradicional de música costuma envolver conhecimentos sistematizados, como leitura de partituras, teoria musical, técnica vocal e domínio de instrumentos.
Já a musicalização na educação infantil está centrada na experiência, na percepção e na descoberta. A criança pode reconhecer contrastes sonoros, experimentar ritmos, movimentar o corpo, criar sequências e participar de brincadeiras cantadas sem precisar dominar técnicas musicais.
O foco não está no desempenho ou na reprodução considerada correta. O professor cria condições para desenvolver escuta, sensibilidade, autoria, criatividade e expressão, respeitando as diferentes formas de participação.
Por que inserir a musicalização na educação infantil?
A musicalização na educação infantil está relacionada às orientações da BNCC e pode contribuir para experiências mais interativas, inclusivas e participativas.
A música pode contribuir para o desenvolvimento infantil porque mobiliza simultaneamente escuta, linguagem, movimento, memória, imaginação e convivência.
Esses benefícios não decorrem apenas da exposição passiva às músicas. Eles estão relacionados à qualidade das propostas, à frequência das experiências, à mediação do professor e à participação ativa das crianças.
Desenvolvimento cognitivo e da linguagem
Ao acompanhar uma sequência rítmica, reconhecer repetições ou lembrar a ordem de uma canção, a criança mobiliza habilidades relacionadas à atenção, à memória e à organização de informações.
Canções, parlendas, rimas e brincadeiras cantadas também ampliam o contato com diferentes palavras e sonoridades, contribuindo para o desenvolvimento da linguagem oral e para experiências que antecedem o processo de alfabetização.
O professor pode realizar pausas para que as crianças completem trechos conhecidos, comparar palavras que apresentam sons semelhantes ou convidar o grupo a criar novas estrofes.
A música não substitui outras propostas pedagógicas, mas pode ampliar as oportunidades de escuta, participação, investigação e construção de sentidos.
Coordenação motora e expressão corporal
Bater palmas, marchar, balançar o corpo, girar, acompanhar uma pulsação ou manipular instrumentos são ações que articulam percepção sonora e movimento.
Essas vivências podem favorecer a coordenação motora, a consciência corporal, o equilíbrio, a orientação espacial e a percepção de diferentes possibilidades de movimento.
As propostas não precisam exigir que todas as crianças repitam uma coreografia da mesma maneira. É possível apresentar uma referência e permitir que cada uma experimente gestos, velocidades e intensidades de acordo com suas possibilidades.
Desenvolvimento socioemocional e convivência
Atividades musicais coletivas criam oportunidades para observar o outro, compartilhar materiais, esperar o momento de participar e construir uma produção em grupo.
A música também pode apoiar a expressão de sentimentos. Uma canção pode provocar movimentos tranquilos, enquanto outra pode despertar gestos mais amplos e rápidos.
O objetivo não é determinar uma emoção única para cada música, mas incentivar as crianças a perceber, comunicar e respeitar diferentes sensações e interpretações.
O contato com repertórios de distintos povos, regiões e comunidades também amplia as referências culturais e ajuda as crianças a conhecer diferentes formas de expressão.
O que a BNCC fala sobre musicalização na educação infantil?
A musicalização na Educação Infantil aparece principalmente no campo de experiências “Traços, sons, cores e formas”, apresentado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Nesse campo, bebês e crianças são incentivados a explorar sons produzidos pelo corpo, pelo ambiente, por objetos e por instrumentos, além de participarem de brincadeiras, criações sonoras e experiências com diferentes ritmos.
As propostas musicais também se relacionam aos seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento previstos para a Educação Infantil:
- conviver;
- brincar;
- participar;
- explorar;
- expressar;
- conhecer-se.
Por meio da música, as crianças podem conviver com repertórios culturais diversos, brincar com sons, participar de atividades coletivas, explorar ritmos, expressar sentimentos e conhecer melhor o próprio corpo.
A musicalização também pode dialogar com o campo “Corpo, gestos e movimentos”, especialmente nas atividades que envolvem dança, imitação, deslocamentos e criação de gestos.
Em “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, canções, poemas, parlendas e histórias musicadas podem ampliar as experiências com a oralidade, com as rimas e com o desenvolvimento cognitivo.
Isso mostra que a música não precisa aparecer como uma atividade isolada. Ela pode integrar experiências artísticas, corporais, culturais e linguísticas, desde que o professor defina o que pretende proporcionar às crianças.
Como trabalhar a musicalização na educação infantil?
A musicalização infantil pode ser desenvolvida por meio de brincadeiras, movimentos, instrumentos e investigações sonoras.
A música pode estar presente na acolhida, nas rodas de conversa, nas histórias, nas brincadeiras, nos deslocamentos e em propostas planejadas de exploração sonora.
Ouvir músicas faz parte da experiência, mas as crianças também precisam ter oportunidades para cantar, movimentar-se, investigar materiais, produzir sons e criar pequenas composições.
Trabalhe a música com bebês e crianças bem pequenas
O contato com a música pode começar desde os primeiros meses de vida, sem antecipar aprendizagens formais ou exigir respostas padronizadas.
Com os bebês, o professor pode cantar durante interações individuais, acompanhar suas vocalizações, apresentar sons suaves e oferecer objetos sonoros seguros, como chocalhos adequados à faixa etária.
Também é possível cantar músicas que mencionem partes do corpo, acompanhar a pulsação com movimentos delicados ou explorar sons produzidos com as mãos e os pés.
Nessa faixa etária, as atividades devem ser curtas e flexíveis. O professor precisa observar sinais de interesse, cansaço, desconforto ou necessidade de pausa, respeitando o ritmo de cada criança.
Com crianças bem pequenas, as propostas podem incluir imitação de sons, deslocamentos, brincadeiras de parar e continuar e exploração de contrastes como:
- forte e fraco;
- rápido e devagar;
- som e silêncio;
- curto e longo;
- perto e longe.
O volume deve permanecer confortável. Crianças com sensibilidade auditiva podem precisar de adaptações, maior distância da fonte sonora ou outras formas de participação.
Faça brincadeiras envolvendo cantigas de roda
As cantigas de roda são uma oportunidade para desenvolver interação social, movimento, linguagem e habilidades motoras.
Além de cantar, as crianças podem criar gestos, trocar personagens, modificar trechos ou comparar versões de uma mesma cantiga conhecidas pelas famílias.
Essas atividades também permitem apresentar repertórios culturais variados. O professor pode conversar sobre a origem das canções e selecionar versões adequadas ao contexto da turma.
Nem todas as crianças precisam cantar. Algumas podem preferir observar, acompanhar os movimentos, tocar um instrumento ou participar em outro momento.
Explore instrumentos, percussão corporal e objetos do cotidiano
Caso a escola tenha condições financeiras, pode investir na aquisição de instrumentos como chocalhos, tambores, pandeiros, reco-recos e triângulos.
Antes de propor uma execução conjunta, reserve um momento para a exploração livre. As crianças podem investigar como segurar o instrumento, quais movimentos produzem sons e como a intensidade pode ser modificada.
A escola, no entanto, não precisa dispor de muitos instrumentos. O próprio corpo pode produzir diferentes sonoridades por meio de:
- palmas;
- estalos;
- batidas leves dos pés;
- sons produzidos com a boca;
- mãos sobre as pernas;
- vocalizações e diferentes formas de respirar.
Objetos do cotidiano também podem ser utilizados. Potes bem fechados com materiais sonoros, colheres de madeira, caixas, tubos de papelão e embalagens resistentes podem compor uma investigação.
Todos os materiais precisam ser seguros, higienizados e adequados à faixa etária. Objetos com peças pequenas, pontas, superfícies cortantes ou risco de abertura não devem ser utilizados.
Uma possibilidade é montar uma orquestra de objetos. Cada grupo explora um tipo de som, enquanto o professor atua como regente e indica quando começar, parar, acelerar ou reduzir a intensidade.
Alterne ritmos, cadências e intensidades
Cada música possui características próprias. Algumas apresentam andamento rápido, enquanto outras são mais lentas. Também existem diferenças de intensidade, duração, timbre e organização rítmica.
Para explorar essas características, apresente inicialmente uma canção conhecida. Depois, proponha novas formas de cantá-la: mais devagar, mais rápido, com voz baixa, apenas com palmas ou alternando som e silêncio.
A intenção é ajudar as crianças a perceber diferenças sonoras e responder a elas por meio da voz ou do movimento.
O professor também pode produzir uma sequência de batidas para que a turma repita. Conforme as crianças compreendem a proposta, elas próprias podem criar padrões para os colegas acompanharem.
Crie movimentos e coreografias
Associar músicas a gestos e deslocamentos ajuda a trabalhar expressão corporal, ritmo, equilíbrio e orientação espacial.
As coreografias podem ser simples, com movimentos como levantar os braços, agachar, caminhar em determinada direção ou imitar ações mencionadas na canção.
Também é possível trabalhar com movimentos livres. O professor pode perguntar como o corpo de cada criança se movimentaria ao ouvir determinado som ou qual gesto poderia representar uma música lenta.
Essa abordagem valoriza a autoria e evita transformar a atividade em uma sequência rígida, na qual todos precisam realizar os mesmos movimentos de maneira sincronizada.
Faça histórias musicadas e atividades com fantoches
Fantoches, objetos e personagens podem ser utilizados em narrativas acompanhadas por sons.
O professor pode selecionar uma história e atribuir um som a cada personagem, ambiente ou acontecimento. Sempre que o elemento aparecer, as crianças produzem o som correspondente.
A turma também pode criar uma paisagem sonora. Em uma história sobre uma floresta, por exemplo, algumas crianças podem representar o vento, enquanto outras produzem sons de chuva, folhas ou animais.
Essas propostas articulam imaginação, oralidade, escuta e criação coletiva. Também podem abordar emoções, empatia, consciência ambiental e outros temas de interesse da turma.
Crie projetos musicais
Gestores e professores podem desenvolver projetos envolvendo diferentes turmas, famílias e manifestações culturais.
Corais, bandas, rodas de cantigas, pesquisas sobre músicas familiares e apresentações podem fazer parte dessas iniciativas. Entretanto, o projeto não deve ser orientado exclusivamente pelo resultado final.
Os processos de exploração, escolha do repertório, criação e participação precisam receber tanta atenção quanto a apresentação.
Outra possibilidade é convidar familiares ou artistas da comunidade para compartilhar instrumentos, canções e histórias, aproximando a escola das experiências culturais presentes em seu entorno.
Trabalhe a musicalização para além das aulas de artes
A música pode dialogar com diferentes experiências sem perder seu valor como linguagem artística.
Em uma investigação sobre animais, por exemplo, a turma pode comparar sons e criar representações sonoras. Em uma proposta sobre o corpo, pode observar a respiração, as palmas e os sons produzidos pela voz.
Sequências rítmicas podem ser relacionadas à percepção de padrões. Canções e parlendas podem ampliar experiências com rimas, repetições e oralidade.
Essa integração permite desenvolver propostas que vão além da teoria musical, mas precisa manter objetivos claros.
A música não deve aparecer somente como uma estratégia para decorar números, letras ou regras. As crianças também precisam ter oportunidades de apreciá-la, explorá-la e produzi-la.
Como planejar aulas e vivências musicais?
O planejamento ajuda a transformar uma atividade recreativa em uma experiência com intencionalidade pedagógica, sem retirar sua dimensão lúdica.
Antes de escolher uma música ou um instrumento, o professor pode seguir algumas etapas.
- Defina o objetivo da experiência: determine se a proposta priorizará percepção de ritmos, exploração de sons, movimento corporal, interação, oralidade, criação ou ampliação do repertório cultural.
- Observe os interesses da turma: considere curiosidades, brincadeiras recorrentes, necessidades de acessibilidade e experiências anteriores das crianças.
- Selecione repertórios e materiais: escolha músicas, objetos e instrumentos adequados à faixa etária e ao objetivo definido.
- Planeje a mediação: prepare perguntas que incentivem as crianças a observar, comparar, investigar e criar.
- Integre outros campos de experiências: estabeleça relações com movimento, linguagem, natureza, convivência ou outros temas quando houver conexão real.
- Registre e avalie o processo: observe como as crianças participam, exploram materiais, comunicam descobertas e criam novas possibilidades.
O objetivo da avaliação não é classificar a criança por sua capacidade de cantar, dançar ou acompanhar um ritmo. O professor deve acompanhar o processo, as descobertas e as diferentes formas de participação.
Exemplo de vivência musical integrada
Uma proposta sobre sons da chuva pode começar com a escuta dos sons do ambiente ou de uma gravação curta.
Em seguida, as crianças podem experimentar como representar a chuva com os dedos, as palmas, os pés, papéis, potes ou instrumentos. O professor pode propor variações de intensidade para diferenciar garoa, chuva forte e diminuição do som.
Depois, o grupo pode criar coletivamente uma sequência composta por vento, primeiros pingos, chuva intensa e silêncio.
A atividade articula percepção sonora, criação, movimento, exploração de materiais e observação de fenômenos do cotidiano.
O planejamento deve permanecer aberto às contribuições das crianças. Caso elas encontrem novas formas de produzir sons ou proponham outra sequência, essas ideias podem ser incorporadas.
Como a formação docente influencia as atividades musicais?
O professor da Educação Infantil não precisa ser instrumentista ou possuir formação especializada em música para promover experiências sonoras significativas.
Entretanto, a formação do corpo docente amplia o repertório de práticas e ajuda o educador a compreender conceitos como ritmo, pulsação, intensidade, duração e timbre.
A formação também contribui para diferenciar uma atividade planejada de uma simples reprodução de canções durante a rotina.
Entre os temas que podem ser trabalhados em ações formativas estão:
- fundamentos da musicalização infantil;
- características do desenvolvimento em cada faixa etária;
- seleção de repertórios culturais diversos;
- construção e utilização segura de instrumentos;
- possibilidades de percussão corporal;
- planejamento alinhado à BNCC;
- inclusão e sensibilidade auditiva;
- observação e documentação das aprendizagens.
Gestores também podem organizar trocas entre professores, convidar profissionais da área de música e criar um acervo coletivo de repertórios e propostas.
Mais do que oferecer atividades prontas, a formação precisa ajudar o professor a observar as crianças, adaptar o planejamento e compreender a música como uma linguagem de exploração e autoria.
Perguntas frequentes
Qual é o objetivo da musicalização na educação infantil?
O objetivo da musicalização na educação infantil é ampliar a percepção sonora, a criatividade, a comunicação e as possibilidades de expressão da criança. Por meio de sons, movimentos e brincadeiras, ela também pode desenvolver habilidades cognitivas, motoras e socioemocionais.
O que a BNCC fala sobre musicalização na educação infantil?
A BNCC relaciona a musicalização principalmente ao campo de experiências “Traços, sons, cores e formas”. O documento orienta que as crianças explorem sons produzidos pelo corpo, por objetos e por instrumentos, além de participarem de brincadeiras cantadas, criações musicais e atividades com ritmos.
Qual é a importância da musicalização na educação infantil?
A musicalização contribui para o desenvolvimento infantil porque integra escuta, linguagem, movimento, memória, criatividade e convivência. Quando planejadas com intencionalidade pedagógica, as atividades também favorecem a coordenação motora, a expressão corporal e a participação em grupo.
Qual é o principal objetivo da musicalização infantil?
O principal objetivo da musicalização infantil é proporcionar experiências de exploração, criação e expressão por meio da música. Diferentemente do ensino técnico de um instrumento, ela prioriza a sensibilidade, a escuta, a participação e a descoberta.
Como fortalecer a musicalização na escola?
A musicalização na educação infantil amplia as possibilidades de escuta, movimento, comunicação e convivência. Para contribuir com o desenvolvimento das crianças, as experiências devem respeitar cada faixa etária e combinar ludicidade, participação e intencionalidade pedagógica.
Conclusão
A musicalização na educação infantil amplia as possibilidades de escuta, movimento, criação, comunicação e convivência. Para que essas experiências contribuam com o desenvolvimento das crianças, precisam respeitar cada faixa etária e combinar ludicidade, participação e intencionalidade pedagógica.
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